Reabilitação pós-AVC e terapia ocupacional

Dra Catharina Machado Portela

O Acidente vascular cerebral (AVC) atinge anualmente cerca de 16 milhões de pessoas no mundo, com seis milhões de óbitos. Atualmente, é a principal causa de incapacidade e morte no Brasil, repercutindo negativamente em aspectos sociais e econômicos da população. Os sintomas mais comuns são fraqueza súbita em um dos lados do corpo, dificuldade para falar, dormência na face, alterações visuais e da sensibilidade e confusão mental. Comumente, resulta em sequelas, que podem variar na gravidade dependendo do tipo de AVC (isquêmico ou hemorrágico) e da extensão da lesão na região acometida (BRASIL, 2014).

Os desafios enfrentados pelos indivíduos com sequelas decorrentes de AVC são inúmeros, como a diminuição ou ausência de força e movimentos em um dos lados do corpo, dificuldades na compreensão e /ou da fala e alterações emocionais, que impactam diretamente no seu desempenho funcional e ocupacional, impossibilitando-os de cuidarem de si mesmos e restringindo sua participação na sociedade (AOTA, 2014).

Equipe multidisciplinar tem papel fundamental no acompanhamento desta população, devido à diversidade de aspectos biopsicossociais que podem estar deficientes ou com dificuldades, sejam leves, moderadas, graves ou completas. A Terapia Ocupacional é uma das profissões de saúde que contribuem em todas as fases de tratamento do AVC (aguda, subaguda, crônica, pós- reabilitação e na comunidade) e é importante dentro do trabalho interdisciplinar, em diversos cenários como UTI, ambulatórios, enfermarias, serviços de reabilitação diversos e Home Care, e em todos os níveis de atenção (CRUZ, 2012; AOTA, 2014).

A Terapia Ocupacional é uma ciência que considera o ser humano como um ser biopsicossocial e espiritual, pautada na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) e na Estrutura da Prática da Terapia Ocupacional: Domínio e Processo. Considera como centro o indivíduo/cliente e suas Ocupações; os Fatores do cliente (valores, crença, espiritualidade, estruturas e funções corporais); Habilidades de desempenho; Padrões de desempenho; Contextos e ambiente  (AOTA, 2014).

O Terapeuta Ocupacional tem como objeto de trabalho no indivíduo, a ocupação humana e o fazer, ou seja, todas aquelas atividades e aspectos relacionados que trazem significado à vida e que desempenhamos cotidianamente. De modo geral, o Terapeuta Ocupacional auxilia na promoção, prevenção, manutenção e recuperação do bem estar e da participação na vida, através do engajamento em ocupações, como (AOTA, 2014):

- Atividade de Vida Diária (ex: banho, vestir, alimentação, autocuidado);

- Atividades Instrumentais de Vida Diária (ex: cuidar de outros, gerenciamento financeiro, dirigir)

- Descanso e sono;

- Educação;

- Trabalho;

- Lazer;

- Participação social.

O Terapeuta Ocupacional trabalha com metas que precisam ser pactuadas com o indivíduo e/ou os familiares e que devem ser específicas, mensuráveis, alcançáveis, realistas e passíveis de serem alcançadas dentro de um determinado período de tempo, além de direcionadas sempre ao desempenho de uma atividade funcional, com reavaliações periódicas do plano de tratamento. Dentro de estratégias da reabilitação de indivíduos com sequelas de AVC, este profissional pode (CRUZ, 2012; WINSTEIN, 2016):

- Exercitar habilidades através de atividades funcionais e significativas ao indivíduo, com repetições de movimentos, visando favorecer o desempenho ocupacional e funcional;

- Reeducar e estimular aspectos sensoriais;

- Treinar as AVDs;

- Treinar as transferências e mobilidade funcional;

- Reabilitar e estimular a cognição;

- Prescrever e confeccionar órteses para membros superiores e inferiores;

- Prescrever e confeccionar adaptações e dispositivos de Tecnologia Assistiva (ex: talheres adaptados, matérias para escrita, facilitadores de preensão);

- Prescrever cadeiras de rodas e orientar/confeccionar de adequadores posturais (seating);

- Prescrever dispositivos de mobilidade funcional;

- Adaptar e adequar o ambiente domiciliar (ex: orientar e instruir para colocação de barras de segurança em banheiros, planejar e reorganizar espaços intradomiciliares para melhoria de circulação de pessoas).

 

Como possibilidades de atuação para a recuperação da funcionalidade desta população, a Terapia Ocupacional convencional pode ser utilizada de modo eficaz, e também é comumente associada à utilização de elementos e/ou abordagens mais específicas para tratamento de indivíduos com alterações neurológicas, como Avaliação e Tratamento de Pacientes Adultos com Disfunção Neurológica - Conceito Bobath, Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (FNP), Terapia por Contensão Induzida (TCI), Terapia por Espelhamento (Mirror Therapy), Prática Mental e Terapia por Realidade Virtual (CRUZ, 2012; WINSTEIN, 2016) .

 

 

AOTA (American Occupational Therapy Association). Occupational therapy practice framework: Domain and process (3rd ed.). American Journal of Occupational Therapy, 68, S1–S48. 2014.

 

BRASIL. Ministério da Saúde 2014. Acidente Vascular Cerebral (AVC). Disponível em < http://www.brasil.gov.br/saude/2012/04/acidente-vascular-cerebral-avc>. Acesso em: 26 de dezembro de 2017.

 

CRUZ, Daniel Marinho Cezar da. Terapia Ocupacional na Reabilitação Pós-acidente Vascular Encefálico. São Paulo: Santos, 2012.

 

WINSTEIN, Carolee J. et al. Guidelines for Adult Stroke Rehabilitation and Recovery. A Guideline for Healthcare Professionals From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke 2016.