Mudança de personalidade e de humor pós AVC – Por que isso acontece?

Neuropsiquiatria em Foco

Dra Raquel Quimas Molina da Costa

Quem já sofreu um AVC ou conhece alguém próximo que passou por essa situação sabe: as mudanças às vezes são mais profundas do que aparentam. De fato, cerca de um terço das pessoas que sofreram um AVC apresentam alterações de humor como depressão e ansiedade, labilidade emocional (ficam mais sensíveis, “choram à toa”), euforia e apatia, ou alterações de personalidade, como desinibição, agressividade e desrespeito a regras sociais. Algumas pessoas podem apresentar até delírios e comportamentos estranhos1,2.

Existem circuitos no nosso cérebro que regulam esses comportamentos e são fundamentais para a manutenção do nosso equilíbrio emocional, do nosso autocontrole e da nossa motivação para seguir em frente. Quando um AVC ocorre, uma região do cérebro sofre uma lesão. Embora essa região muitas vezes não esteja diretamente relacionada à regulação do comportamento, a lesão interfere no bom funcionamento de todo o circuito do cérebro. Outra explicação para este fenômeno seria a inflamação ocasionada pela lesão do tecido cerebral após um AVC, o que também contribuiria para o mau funcionamento dos circuitos cerebrais3.

Dentre as mudanças de comportamento mais comuns após um AVC estão a depressão e a ansiedade. Estas costumam ser transitórias, porém se não forem reconhecidas e tratadas podem atrapalhar o processo de recuperação do paciente e até mesmo cronificar4. Estudos têm demonstrado que o desenvolvimento de alterações do humor e do comportamento pós AVC contribuem para uma pior qualidade de vida e atrapalham o sucesso da reabilitação motora e cognitiva. A boa notícia é que essas alterações podem ser tratadas de forma muito semelhante a quadros de humor e de comportamento vistos em outras condições médicas, como por exemplo com antidepressivos ou terapia cognitivo comportamental (TCC)4.

Após um AVC também podem acontecer alterações de personalidade e estas costumam ser identificadas pela família e pelas pessoas mais próximas. Há regiões no nosso cérebro, presentes na sua porção mais anterior – o lobo pré frontal – que controlam a essência mais sutil e complexa da nossa personalidade. Dentre as funções desta região estão o controle dos impulsos, a percepção de regras sociais, a capacidade de compreender o que o outro está sentindo e a inibição de comportamentos inadequados5. Um exemplo de alteração no funcionamento desta rede pré frontal seria uma pessoa que costumava ser tímida e educada em contextos sociais e após sofrer um AVC passa a não saber se portar à mesa e fazer piadas e comentários inapropriados em reuniões de família. Isso ocorre por causa da lesão direta ou indireta dos circuitos da região pré frontal do cérebro. Outras manifestações de lesões a estes circuitos incluem a dificuldade para planejar, tomar decisões e fazer atividades ou tarefas em sequência, também funções das regiões pré frontais.

Nestes casos, as alterações podem ser transitórias, em especial, quando não há lesão direta da região pré frontal. Entretanto, se ocorreu uma lesão significativa desta região, a recuperação pode ser mais difícil ou limitada. Há opções de tratamentos medicamentosos que auxiliam no controle dos impulsos, irritação e agressividade e também reabilitação cognitiva específica6. Todavia, o processo de reabilitação das funções pré frontais pode ser lento e frustrante e é importante que tanto o paciente como seus familiares conversem constantemente com a equipe de saúde para que compreendam as características destas alterações e como lidar com elas.

É necessário falarmos sobre a possibilidade dessas mudanças – de humor ou de personalidade – ocorrerem nos casos de AVC e de sua natureza diretamente ligada à resultante perturbação neurológica. Muitas vezes o paciente, a família ou mesmo a equipe de saúde não compreendem o porquê destas mudanças e as atribuem erroneamente a uma reação emocional “traumática” desta difícil situação. Certamente, sofrer um AVC é impactante para a vida do paciente e das pessoas à sua volta, mas o surgimento de quadros de humor e comportamento independem da vontade do indivíduo. Esta confusão pode contribuir para sentimentos de culpa e impotência sobre a situação e impedir o correto reconhecimento e uma intervenção adequada.

Referências
1. Hacket ML et al. Neuropsychiatric outcomes of stroke. Lancet Neurology 2014 Volume 13, No. 5, p525–534
2. Pedroso VSP et al. Síndromes neuropsiquiátricas associadas a acidentes vasculares encefálicos: revisão de literatura. J Bras Psiquiatr. 2014;63(2):165-76
3. Taylor WD, Aizenstein HJ, Alexopoulos GS. The Vascular Depression Hypothesis: Mechanisms Linking Vascular Disease with Depression. Molecular psychiatry. 2013;18(9):963-974. doi:10.1038/mp.2013.20.
4. Chemerinski E, Levine SR. Neuropsychiatric disorders following vascular brain injury. Mt Sinai J Med. 2006 Nov;73(7):1006-14.
5. Cummings J and Miller B. The Human Frontal Lobes. 2007. The Guilford Press. Second Edition.
6. D'Esposito, M., & Gazzaley, A. Neurorehabilitation of executive function. 2005 In: Selzer, M., Clarke, S., Cohen, L., Duncan & Gage, R. (Eds). Textbook of Neural Repair and Rehabilitation (pp.475-487) Cambridge University Press.