Educação Física para pessoas com AVC

Educação Física para pessoas com Acidente Vacular Cerebral

Murilo Groschitz Ruas Almeida
Natalia Araujo Mazzini

               As diversas disfunções que podem ocorrer após um Acidente Vascular Cerebral (AVC) podem ocasionar déficits em diferentes campos, tais como: motor, sensorial, linguagem, cognição, visual, entre outros. Esse conjunto de déficits geram dificuldades na mobilidade (manutenção da posição corporal, transferências e deambulação), ao autocuidado, na realização das atividades da vida doméstica, na interatividade interpessoal e social (SCHEPERS et al., 2007; MIM et al., 2009). Tais déficits, quando acrecidos da redução da motivação intrínseca e  presença de comorbidades pré existentes ou adquiridas, levam a um ciclo vicioso de diminuição dos níveis de atividade física e maior intolerância ao exercício. Tal ciclo, por sua vez, resulta em complicações secundárias como a redução da aptidão cardiorrespiratória, atrofia muscular, osteoporose e comprometimento da circulação sanguínea nas extremidades inferiores (GORDON et al., 2004).

              Depois de um primeiro evento, 30% dos sobreviventes de AVC terão um episódio recorrente, sendo que 18% são fatais (BILLINGER et al., 2014). Existem diversos fatores de risco para um AVC, dentre eles, hipertensão, diabetes mellitus, distúrbios do ritmo cardíaco, dislipidemia, obesidade, tabagismo, inatividade física, alimentação inadequada, distúrbios psicossociais (ansiedade, depressão, entre outros), histórico familiar e gênero (MOZAFFARIAN et al., 2015)
Tendo em vista todos os prejuízos funcionais e psicossociais dos indivíduos pós AVC, os exercícios físicos figuram uma estratégia de intervenção eficaz, uma vez que existem evidências na literatura de que estes, quando realizados de forma regular, podem melhorar a capacidade aeróbia, a força muscular, os sintomas depressivos, o equilíbrio, a marcha e a cognição; podendo repercutir na melhora da qualidade de vida dessa população.

           Diferentes profissionais da área da saúde, que também fazem uso do movimento do corpo humano como objeto de estudo, utilizam intervenções com exercícios físicos. No entanto, tratando-se especificamente dos profissionais de Educação Física e da sua atuação com a população pós-AVC, definem-se os seguintes objetivos: romper o ciclo vicioso de inatividade física (PANG et al., 2013), prevenir os fatores de risco modificáveis, a fim de evitar um evento recorrente (SAUNDERS; GREIG; MEAD, 2014) e elaborar programas de intervenção específicos que visem a promoção do bem estar, da saúde, da autonomia e da qualidade de vida (TORRIANI-PASIN; BASTOS, 2013).

          Os benefícios dos exercícios físicos e seus métodos de aplicação na população pós-AVC já são tão bem evidenciados na literatura científica, com diretrizes de prescrição reconhecidas e publicadas em periódicos de renome. Uma das diretrizes mais recentes e atualizadas é a de Billinger et al., 2014, na qual o exercício físico é categorizado e possui seus benefícios e recomendações de prescrição apresentados e definidos, levando sempre em consideração os princípios FIIT (frequência, intensidade, tempo/duração e tipo/modalidade) (ACSM, 2010).

             Antes do início de um programa de exercícios, é necessário que o profissional de Educação Física realize uma triagem, a fim de obter tanto informações relacionadas  ao histórico médico do sujeito pós-AVC, para garantir a segurança da prática do ponto de vista neurológico e cardiovascular, tanto obter informações sobre as preferências individuais e os objetivos específicos do indivíduo; colaborando para a manutenção da motivação e do engajamento ao treinamento (BURKOW-HEIKKINEN, 2009).
A respeito dos exercícios aeróbios, Billinger et al. (2014), preconizam que estes sejam realizados de 3 a 5 vezes por semana, em sessões de 20 a 60 minutos de duração (ou múltiplas sessões de 10 minutos). Para realizar a prescrição deste tipo de exercício é de suma importância que o profissional de Educação Física possua parâmetros confiáveis para determinação dos limiares de frequência cardíaca a serem utilizados durante o treinamento, controlando deste modo a intensidade do mesmo.

         O parâmetro dito “padrão-ouro”, ou seja, o de maior precisão e confiabilidade é o teste ergoespirométrico, a partir do qual se utiliza o primeiro e o segundo limiar ventilatório como limiares para o treinamento. Em seguida, já um pouco menos preciso, tem-se o teste ergométrico, a partir do qual se pode utilizar a frequência cardíaca máxima atingida para calcular os limiares de treinamento através da sua aplicação na fórmula de Karvonen ((FCmáxima - FCbasal) X % FC + FCbasal), na qual considera-se a porcentagem de 40% e 70% para determinação do primeiro e do segundo limiar, respectivamente. Neste caso, se o sujeito apresentar limiar de isquemia durante o teste, deve-se deduzir 10 batimentos cardíacos da frequência cardíaca em que a isquemia ocorreu e não ultrapassar, em hipótese alguma, tal valor durante a sessão. Bem menos precisos e não recomendados pelo fato de não verificarem a segurança do treinamento do ponto de vista cardiológico, estão a definição dos limiares através de estimativas da frequência cardíaca máxima, como 220-idade (ACSM, 2000) (ou, segundo Brawner et al. (2004), 164 – 0,7 x idade, para sujeitos que façam uso de medicamentos betabloqueadores) e da utilização da percepção subjetiva de esforço.

             Para garantir que o trabalho desempenhado durante o treino aeróbio seja seguro e esteja repercutindo do modo a gerar os estímulos esperados, é necessário garantir constantemente que o indivíduo esteja dentro dos limiares estipulados anteriormente, o que pode ser feito através da utilização de frequencímetros.
A respeito dos exercícios de força, Billinger e colaboradores (2014), preconizam que estes sejam realizados de 2 a 3 vezes por semana e que sejam selecionados de 8 a 10 exercícios, a serem realizados de 1 a 3 séries, de 10 a 15 repetições e com cargas de 50%–80% de 1 Repetição Máxima.

            Sobre a realização de exercícios neuromusculares, com o objetivo de melhorar o equilíbrio e mobilidade, as diretrizes preconizam que estes devem ser realizados de 2 a 3 vezes por semana. Para tais, os profissionais de Educação Física podem fazer uso de exercícios com diferentes superfícies de apoio, bases de suporte e modificações no campo visual. Ressalta-se a importância de permanecer sempre próximo aos indivíduos, com o intuito de garantir a segurança durante a execução dos exercícios que envolvam risco de queda.

          Por fim, o papel do profissional de Educação Física e a aplicação dos seus conhecimentos já se faz fundamental na equipe de reabilitação após um AVC. A prática profissional deve sempre levar em consideração as evidências científicas e garantir, em primeiro lugar, a segurança e integridade dos sujeitos; considerando também, sempre que possível, as preferências individuais garantindo maior adesão aos programas de exercícios.

REFERÊNCIAS

ACSM. Guidelines for exercise testing and prescription. 8th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wikins, 2010.
BILLINGER, S. A. et al. Physical activity and exercise recommendations for stroke survivors: A statement for healthcare professionals from the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke, v. 45, n. 8, p. 2532–2553, 2014.
BRAWNER, C. A. et al. Predicting maximum heart rate among patients with coronary heart disease receiving β-adrenergic blockade therapy. American Heart Journal, v. 148, n. 5, p. 910–4, 2004.
BURKOW-HEIKKINEN, L. The role of personal trainers for stroke rehabilitation. Neurological Research, v. 31, n. 8, p. 841–847, 19 out. 2009.
GORDON, N. F. et al. Physical Activity and Exercise Recommendations for Stroke Survivors: An American Heart Association Scientific Statement from the Council on Clinical Cardiology, Subcommittee on Exercise, Cardiac Rehabilitation, and Prevention; the Council on Cardiovascula. Circulation, v. 109, n. 16, p. 2031–2041, 2004.
MOZAFFARIAN, D. et al. Heart disease and stroke statistics-2015 update : A report from the American Heart Association. [s.l: s.n.]. v. 131
PANG, M. Y. C. et al. Using Aerobic Exercise to Improve Health Outcomes and Quality of Life in Stroke: Evidence-Based Exercise Prescription Recommendations. Cerebrovascular Diseases, v. 35, n. 1, p. 7–22, 2013.
SAUNDERS, D. H.; GREIG, C. A.; MEAD, G. E. Physical Activity and Exercise After Stroke. Stroke, v. 45, n. 12, p. 3742–3747, dez. 2014.
SCHEPERS, V. P. M. et al. Comparing contents of functional outcome measures in stroke rehabilitation using the International Classification of Functioning, Disability and Health. Disability and rehabilitation, v. 29, n. 3, p. 221–230, 2007.
Torriani-Pasin, C; Bastos, F.H. . Contribuições da Classificação Internacional de Funcionalidade e Saúde (CIF) para profissionais de Educação Física que atuam com pessoas com deficiência. In: Walter Roberto Correia; Luciano Basso. (Org.). Pedagogia do Movimento do Corpo Humano. 1ed.São Paulo: Fontoura, 2013, v. 1, p. 109-120.